Sábado, Março 07, 2009

Ao Mar

Morro cada momento em que seu olhar é oco. Balões coloridos enfeitam a sala e sei que dentro há doces, vários, menos um. Amor não vem com açúcar. Queria poder ser amado incondicionalmente, errado ou certo. Beijar e transar a gozo farto, suado, aberto.

Preciso, e isso dói, aceitar o fato. Morro se insistir, não serei amado como ele, como ela. Jamais. E neste caso, nunca não é tempo, mas sim um ponto único e duro dentro de mim. Estrangeiro mesmo, será sempre assim. Voz encadeado ódio. Menos, inferior a, imperfeito se comparado com, morto caso tivesse de optar por.

Os restos de um tumulo enterrado a sete chaves, atrás da minha pele e dos meus cabelos negros. Meus olhos aprenderam desde cedo a desistir, sabia que não era meu. Poderia um dia ser? O que preciso saber? Qual ação atrairia a mim de uma vez, sobre meu corpo excitado?

Quantas pessoas teria de seduzir até ter certeza do que eu era? De que todos sabiam disso e me amavam. O número um. Como não! Entre mim e você há um plano, ideal, correto, de linhas curvas também. Caia nele, nas mentiras oceânicas há verdades ocultas, Netuno nos aguarda e seu corpo servirá a ele, eternamente.



[Link Imagem: http://www.cartografia.eng.br/artigos/ncarto06a.asp]

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

Passagem


Em seus sonhos crepitados de sol ouvia música suave. As plumas leves esparramando brancas lembravam pássaros, sabia como nasciam. Entreaberta a cortina desenhava os livros empoeirados debaixo da mesa, deixando mais ou menos luz lembrá-los, ora mergulhando tudo no escuro. Era dia já há seis horas. Meio dia contado no relógio do teto. Esqueceu de comer, levantar seria um crime, qualquer ato confirmaria o pior. Só. Procurou alguém, felicidade clicada, a voz conhecida da televisão não o abandonara, ainda bem.

“Conte-me sobre as delícias do kit top iogurte Marta (...) Sim Elo! (...)”

Queria rir. Riu, o que preenchia o oco das gavetas, da cômoda, do sofá. O som desceu garganta abaixo, ecoando por um espaço quente e úmido. O celular, o e-mail, talvez o orkut, qual meio mais viável. Era? Não. Continuar em câmara lenta resolveria menos, voltar a dormir impossível. Esqueceria, fim, por que pensar? O mundo e as nuvens não mudaram mesmo, nem a planta no canto. Morreu um pouco neste momento.

“Polícia ouve mãe que afogou (...)”

“Eu quero você”. Repetia em um mantra sem remetente, resposta ou pretensão. Arrependimento jamais. As fotos na lixeira, virtual e real, eram necessárias. Porém, não entender fazia mal, o intoxicava. Não, tudo estava claro, comprovado, simplesmente.

“Cientistas prometem curar obesidade por meio de bactéria mutante”

Inevitável buscar a explicação do oráculo de Delfos, voz magna entre os humanos. Por que fazem? O que basta para resolver? A justa medida deveria caber onde é colocada, mas não, parece folgada, apertada, pouco confortável, como sapato de liquidação. O poder da dúvida não seria esse? Mover o sólido, as convicções, instituir espaço para movimentos em direção a alguma resposta?. O “Não!” emergia dos infernos. Este imperativo negativo. Mas, “Eu quero você”. “Não!” Muitos nãos, haja nãos... Quantos nãos cabem em uma frase? Todos. Afinal um já basta para a sentença.

“Quem perdeu conjunção de Vênus e Plutão com a Lua terá outra chance só em 50 anos”

Espetáculo efêmero, como aguardar tanto? Morreria antes. Não viu agora. O problema é o porquê? Motivos africanos, modernos, futuristas, algum precisava o socorrer. As palavras magnéticas da televisão penetravam a mente deslizando informações, cimento disforme dentro de si. Que arquitetura estranha desconhecer. “Eu quero você”. Quebrara as vigas da cama na briga de ontem, como remontar?. “Eu quero você”. Lembrou um pouco, desfecho diferente era possível? “Não”. “Eu quero você”. Morria mais. “Eu quero você”, começou a gritar ouvindo o som monótono da linha telefônica ocupada, da caixa de e-mail vazia, da mensagem ignorada.

“Intervalo para os comerciais e já voltamos, não saía daí!”

Saiu. O outro canal passava um filme mudo, insuportável. Clipes em seqüência aleatória. Experimentaria? Parado, fixou os olhos na musa esquálida de preto, cabelos ao léu, berrando em solo. Desesperado, sentiu uma lágrima nova bater no colo. Sem alívio, desamparado, clamou por religiões, mas os deuses diplomatas estavam em guerra, voltasse depois. Viajou pelas compras, ameaçadas pelo dólar. “Eu quero você!”.

“Pet Bebês! Esquente seu coração com um novo membro para a família!”

Levantou, resoluto. Compraria um, batizado de Teodoro. O diferente tinha de ser o mesmo. “Não! Eu quero você”. Seja feita vossa vontade.

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

O Tédio às vezes me Visita


O sol mais claro, com a voz sumida da festa lá embaixo, fazia o ar menos denso girar sem olhar para trás.

- Você esqueceu que dia é hoje! Você esqueceu que dia é hoje!

Não, eu não esqueci. Deveria? Por que não me conta, pela enésima vez? Acordei. O quanto o tempo consumia as drágeas do meu vitamínico era um mistério sem fim, mais cafeína, por favor. Não queria imaginar o trânsito, nem as mensagens no celular. Aborrecimento é um termo lindo agora, mas com o quê? Afinal, não havia razão para aquilo, estava, sim estava, tudo bem.

Da minha janela via os carros e meu rosto refletido, ao mesmo tempo, eu era um engarrafamento! Será? Eu até soltava fumaça pelo rabo, mas não peidava tanto, a camada de ozônio não iria, até literalmente creio, para o espaço por minha causa. Aí, quanta bobagem. Acho que por isso ando tão chato, em círculos como um hamster peludo, quero uma cera quente agora e chega de ração!

Pensava, esse era meu problema, imaginava demais, uma rotina é como uma quentinha, você come, depois sofre a indigestão se for o caso. Eu queria mais da vida? Mais o quê Santo Cristo Deus Pai? Sim, reza meu filho pra ver se desce. Leite, pão, faculdade, supervisão, estágio, mais aula, terapia... Eu, eu por favor, quando tem um horário na minha agenda pra mim? Sim, porquê até o meu momento é momento de pensar nos conflitos do passado longínquo, do que não fiz e preciso fazer e, mais, de dar atenção para fulano, cicrano, beltrano, e sempre sorrindo por que não to doente... não to doenteeeeeeee... Eu não estou mesmo, e?

Chega! Já basta... Eu não estou com dor de cabeça, cotovelo, barriga, coração, da alma, ou qualquer outra que possa existir ou ser inventada. Eu simplesmente estou insatisfeito e não me venham com palavras compradas da auto-ajuda de plantão, ambulância dos desesperados. Se quisesse isso, lia você-sabe-quem, ah, devo dizer que não me refiro ao doce Potter, deixo claro. De fato, eu não sei, e acho que esse vazio do Real, do Nada... é pior do que seguir o tal cotidiano.

Que venha o trânsito! Por que de criatividade só depois de ver a aula, tirar a xerox, falar com a minha supervisora, almoçar aquele açaí com pão “natural” da fábrica... Ah!

[Link: http://www.geekalerts.com/cloud-hangers/]

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